Ciências Sociais e o Desmantelamento da Educação

“…Tempos de dizer
Que não são tempos de calar
Diante da injustiça e da mentira.
É tempo de lutar!”
Mauro Iasi

A situação de precarização da Educação atual não é segredo pra ninguém. Que a Universidade Pública no Brasil anda abandonada enquanto as particulares pipocam por aí estamos fartos de saber. Contudo, já não basta constatar os problemas, nem citar os dados, nem criar estatísticas sobre as estatísticas apresentadas. Ou buscamos entender a fundo o problema para solucioná-lo, ou nos acostumamos com a educação que nos é dada.

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Não. Nossa ciência não é neutra. E isso deve ser repetido toda vez que o discurso da pretensa neutralidade aparecer, ainda mais quando tratamos das ciências sociais. Vivemos em uma sociedade inegavelmente não neutra, desigual e marcada a sangue e suor pelas contradições que saltam aos olhos de quem assiste a novela e de quem bate o cartão. Infelizmente, na academia, enquanto caem as paredes, o discurso da neutralidade tenta segurar com as mãos e a duras penas a “verdade” que insiste em desmoronar: nossa universidade não se configura como universo paralelo, ela nada mais é do que reflexo direto e parte constituinte da sociedade em que vivemos: uma sociedade dividida em classes.
Acusações ganham espaços no campo da disputa das ideias. Interessante notar que agora a pretensa neutralidade toma partido: seu partido é contra a intervenção na realidade, já que a ciência não pode se sujar com a lama da prática. Seu partido é por mãos amarradas enquanto se observa o mundo girar. Esquece-se contudo, que desde o surgimento e consolidação do ilustríssimo método cientifico (rigoroso, prodigioso e estupendo, palmas, palmas!) nunca houve um só momento em que a ciência não estivesse a serviço de um ou outro grupo social, de uma ou outra ideia e que mesmo a doce ilusão de não se posicionar é, em si, um posicionamento a favor do status quo. Esquece-se que, mesmo nas ciências naturais, onde a diferenciação entre o ser humano que estuda e a natureza que é estudada se dá de forma clara, houve tempos em que ideias colocadas no bojo da sociedade levaram para fogueira pessoas em um tempo que a ciência não fingia neutralidade.
Portanto, repetimos: nossa ciência não é neutra, nem se propõe a ser. O que fazemos, pensamos, debatemos e produzimos deve tomar partido sim diante as contradições da sociedade que nos chega como murros todos os dias. E aqui, tomamos partido em relação a educação.
Quem paga a banda, escolhe a música, já nos disseram. E é o que vemos acontecer no terreno educacional brasileiro. Privatizações, concessões sem critérios justificáveis à empresários da educação (sim, educação não é direito, é objeto de compra e venda nessa sociedade) e desmantelamento do que deveria ser o “serviço público” – o nosso (?) serviço público ou as condições básicas para (sobre)viver. Não entraremos nos dados estatísticos aqui, pois o texto se propõe a ser uma reflexão sobre o nosso papel. As estatísticas encontram lugar em muitas outras pesquisas cientificas que constataram empiricamente o que temos vivido na educação.
Longe de ser a situação ideal, a pergunta que nos chega é: “E agora, o que faremos?”. De constatações estamos fartos! De problemas, transbordamos. Mas a nossa ciência na medida em que se faz como instrumento de transformação tem sido usada para algo além de diagnósticos frívolos e arquivos sociais?
Avaliemos mais de perto a relação entre a reflexão teórica e a condicionante prática de nossa situação. Enquanto comissão organizadora de um Encontro Nacional, somos estudantes da federal e da estadual do estado do Ceará, dividimos salas de aula, projetos de extensão, professores e a estrutura que nos é oferecida para uma suposta formação qualificada. Formação qualificada que, ao ser discursada todo inicio de semestre pela seção administrativa das universidades aparece como um tripé necessário: “ensino, pesquisa e extensão” na tentativa de uma formação completa, capaz de propiciar experiência prática e subsidio teórico na formação de profissionais que deverão atuar ativamente em um mercado de trabalho altamente concorrencial (e, no caso de nosso curso, extremamente limitado). Contudo, entre o discurso apresentado e as condições objetivas encontradas nas universidades, o abismo é grande. E aqui não nos basta culpar apenas a administração dessas instituições mas entender o lugar em que ocupam no cenário educacional brasileiro.
Enquanto a Universidade Federal do Ceará tem sido pensada para ser um “centro de excelência e tecnologia” – e é claro que isso implica em uma desvalorização da área das humanas, sendo a maior parte dos investimentos governamentais aplicados nas áreas de tecnologia e na criação de novos cursos nos últimos anos, a Universidade Estadual do Ceará passa por um processo de total desmantelamento, apresentando a falta de mais de 300 professores efetivos – sim, o governo se recusa a abrir um concurso que seja capaz de dar conta da demanda existente! – além de falta de estrutura e um processo de reestruturação curricular em todos os cursos, inclusive no curso de ciências sociais, que procura “valorizar” (?) a licenciatura em detrimento do bacharelado. Por valorizar, entende-se uma formação docente tecnicizada, sem estrutura alguma para desenvolver pesquisa e potencializar a prática docente . Acreditamos que o exemplo não foge a regra e entendemos que só a partir de intensas mobilizações estudantis, docentes e de servidores é que teremos a possibilidade de transformar essa situação.
Hoje, a Universidade Estadual do Ceará, que sediará a duras penas o nosso encontro, recebe uma verba de 20 milhões por ANO e conta com a existência de um instituto particular (IEPRO) na suposta tentativa de “melhoria das condições”. Tudo isso posto, somado a um discurso democrático de cooptação e tentativa de criminalização de toda e qualquer manifestação que questione, mesmo superficialmente, essa realidade, nos deixa como herança um cenário caótico onde não se salva ninguém.
Diante disso tudo, acompanhando de perto todas as mazelas nos proporcionadas, voltamos a questão inicial sobre para quê tem servido a nossa ciência?
Se até aqui temos constatado os fatos, diagnosticado realidades e descrito contradições, nos desafiamos a subverter com ciência tudo isso e fazer da nossa ciência, da nossa formação e da nossa atuação instrumentos de transformação social e lutarmos por uma Educação que se construa cotidianamente e tome partido diante das contradições da realidade.
Belchior que nos desculpe, mas estamos sim interessados em uma teoria. Na medida em que ela nos ajude a transformar a “alucinação de enfrentar o dia a dia” em luta e superação da realidade que vivemos.

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