A Metodologia Josué de Castro e os Encontros Estudantis de Ciências Sociais: Para debater o conteúdo

Há alguns anos é latente no movimento estudantil de ciências sociais a necessidade de acumular acerca de nossos encontros estudantis e o que se pretende ser esses espaços. Nesse sentido, a Comissão Organizadora do XXVIII ENECS, Fortaleza tenta, através do texto abaixo contribuir nessa discussão e na construção cotidiana do movimento estudantil de ciências sociais.. Boa leitura!

 

A Metodologia Josué de Castro e os Encontros Estudantis de Ciências Sociais: Para debater o conteúdo

 

Contribuição da Comissão Organizadora do XXVIII ENECS ao Movimento Estudantil de Ciências Sociais

 

 

Introdução

 

Desde o ENECS Belo Horizonte, em 2011, temos repensado toda a estrutura organizacional dos nossos encontros estudantis e amadurecendo a ideia de aplicação do método Josué de Castro. A escolha não foi aleatória. Utilizado em espaços de formação do MST e alguns outros movimentos sociais, o MJC procura redimensionar o caráter valorativo do trabalho manual e sua relação com o trabalho intelectual assim como repensar as dinâmicas de sociabilidade nos espaços, na tentativa de abrir possibilidades para a gestão de novas relações sociais que possam se estabelecer como ensaios de uma nova sociedade insurgida da ruptura com o atual modelo capitalista. Mesmo antes do ENECS BH houveram experiências à nível regional que nos proporcionaram um acúmulo prático em relação ao método, mas desde então é consensual nos nossos espaços do movimento que precisamos acumular teórico e praticamente para que a aplicação do método não se dê de forma vazia e pouco refletida. É nesse sentido que nós, da Comissão Organizadora do XXVIII ENECS gostaríamos de contribuir com a síntese de alguns debates que tivemos ao longo da construção do nosso encontro nacional. Esperamos com isso socializar nossas reflexões e dar o ponta pé para que o mecs possa produzir formulações e se tornar, definitivamente, perigoso!

  1. O Método Josué de Castro em si: O que é, pra que serve e de onde vem?

O Método Josué de Castro [MJC] é uma metodologia inicialmente pensada para os espaços das Oficinas Organizacionais de Capacitação – OFOC’s, espaços de formação política e laborial do MST, iniciadas em 1991. A ideia inicial era a capacitação das famílias assentadas para o trabalho e cooperação agrícola, através do proporcionar de uma dinâmica diferenciada e organização sócio espacial que funcionasse como base material para o amadurecimento da necessidade de ruptura com as relações sociais vigentes. Através do Instituto Josué de Castro [IEJC] o método foi aprimorado, culminando em um método pedagógico de formação de consciência, cujo principio basilar é o da coletividade.

Bebendo teoricamente da chamada “escola do trabalho”, de autores como Pistrak e também de Krupskaya e Makarenko, incluindo ainda na bibliografia Saviani, o método foi pensado tendo o trabalho1 como principio educativo. Isto significa que é no e pelo trabalho que a sociabilidade é pensada e a vida social organizada. Podemos dimensionar o que isso significa em um espaço amplo, de organização da vida por excelência como os assentamentos.

Para que se estruture o MJC se fundamenta em quatro pontos principais: a) complexidade/heterogeneidade, que corresponde a diversificação dos sujeitos sociais participantes; b) materialidade, ou plano da realidade concreta; c) Autonomia como responsabilidade nas decisões, ou principio da coletividade e d) potencialização dos interesses individuais ou desenvolvimento da consciência do individuo. Além disso apresenta quatro princípios metodológicos, sendo eles 1) Necessidade da mudança da existência; 2) Primado da materialidade, ou a necessidade de se pautar na vida material entendendo que “não é a consciência que determina o ser mas o ser que determina a consciência”; 3) O primado do objeto sobre o sujeito ou a compreensão da importância da materialidade na formação do sujeito e 4) Aproveitamento da contradições materiais existentes. As estratégicas pedagógicas utilizadas tem como objetivos e fundamentações centrais a) que todos trabalhem e todos decidam, b) continuidade do processo de consciência; c) necessidades objetivas como base para a estruturação da sociabilidade; d) contato com o mercado, no caso do desenvolvimento das potencialidades profissionais; e) necessidade de se pensar o ritmo do processo.

Em suma, o método, ao se estruturar como método pedagógico de formação da consciência procura desenvolver a consciência social e política dos sujeitos participantes fazendo com que, através do principio de coletividade, os indivíduos potencializem suas ações e se tornem sujeitos ativos na dinâmica social da vida.

  1. Algumas contradições – Reflexão necessária

Ao analisarmos o MJC, faz-se necessário entendermos a relação entre a proposta teórica e a realidade objetiva, seguindo os princípios do próprio método. Ao ser pensado tendo como base a escola do trabalho e a ideia de trabalho como principio educativo, o método vislumbra uma materialidade social que não a nossa. Vale lembrar que a escola do trabalho foi pensada na união soviética, em meio a uma experiência real de Estado proletário. A necessidade de se repensar o modo de sociabilidade era latente e correspondia ao estágio transitório que representa o socialismo

Levando isso em consideração e também a inicial aplicação do método – em espaços de assentamento cuja a dinâmica social da vida é toda reconfigurada dentro dos princípios de transformação social dos próprios movimentos sociais que compõem àquele espaço juntamente com a realidade especifica da vida no campo – é importante ressaltarmos que existe uma dificuldade encontrada em consideramos o trabalho como principio educativo dentro de uma sociedade cuja centralidade do trabalho é a base da divisão social de classes.

Entender isso é importante para dimensionarmos a concretude da aplicação do método e os limites encontrados ao aplicá-lo – de forma fragmentada e adaptada – aos encontros estudantis de ciências sociais. A lei geral, com base nos princípios e estratégias pedagógicas é válida mas precisamos analisar concretamente um cenário específico, sendo ele, o cenário dos espaços estudantis do curso de ciências sociais.

  1. A realidade dos encontros estudantis de ciências sociais: À quê o método serve.

Voltemos a BH e relembremos um pouco do que se colocava em xeque naquele momento, em relação aos nossos encontros? A pouca participação geral nos espaços, o esvaziamento de alguns espaços políticos e a discussão acerca do que chamamos “turistagem”2. Tudo isso junto traziam a necessidade de pensar para que servem os encontros estudantis de ciências sociais e o que queremos com eles. É por aí que se vai pensar sobre a aplicação do MJC, trazida da experiência militante de estudantes que participam de movimentos sociais e também de experiências regionais como a do ERECS CARUARU, no nordeste. Dessa forma, o primeiro passo para irmos consolidando nosso acumulo em relação à metodologia dos encontros é sistematizarmos, em alguns pontos, as questões de pano de fundo na organização dos nossos espaços

  1. Qual o objetivo de um encontro estudantil de ciências sociais?

Um encontro estudantil de ciências sociais, em primeiro lugar, não é apenas um espaço acadêmico. Oriundo da universidade, obviamente, é um espaço de socialização de conhecimentos, adquiridos ao longo da graduação em Ciências Sociais. Contudo, acreditamos que tais encontros são, primordialmente, espaços de debates políticos acerca da instrumentalização de nossa formação profissional e humana. Isso significa dizer que os debates acadêmicos em nossos encontros não podem e não devem dissociar-se dos debates políticos, já que são momentos de um mesmo processo, sendo ele, o da nossa formação.

É muito comum debatermos em separado o “movimento estudantil” e a “formação acadêmica”. Se é verdade que podemos entender o movimento estudantil como um processo prático do acumulo acadêmico-político ao longo da vida universitária, é verdade também que a formação acadêmica não foge a regra de ser parte da totalidade formativa que corresponde, indissociavelmente a um fim prático. Nesse sentido, os encontros estudantis de ciências sociais são espaços de socialização de conhecimentos e de potencialização de nossa atividade prática, exemplificada no movimento estudantil de área.

Importante compreender que, com isso, se faz necessário primeiramente entender as demandas e reais necessidades de quem vem ao encontro. É necessário saber que a “turistagem”, bem como a existência de espaços de apresentação de trabalho, por exemplo, são importantes no processo de integração durante os encontros. Tais espaços devem ser pensados na perspectiva apresentada, de socializar o conhecimento e potencializar a atividade prática.

    1. De que cor os encontros estudantis de ciências sociais se pintam?

Quem são os estudantes que comparecem aos encontros? Quais são as demandas trazidas por eles? O que é preciso para transformação da dinâmica de integração nos nossos encontros estudantis para que sejam espaços cada vez mais coletivos? Talvez essas sejam as questões mais objetivas colocadas como desafio para o movimento estudantil de ciências sociais. Entender a realidade concreta dos nossos encontros e a composição material de quem participa do encontro é a primeira coisa ao se estruturar, com base no objetivo dos encontros, uma metodologia capaz de aprimorar os espaços e instigar a participação. É necessário resgatarmos as dinâmicas de agitação e propaganda próprios dos movimentos sociais para conseguirmos consolidar nos nossos encontros a noção de coletividade. Para que exista tal noção é importante que o encontrista se reconheça enquanto parte de um todo. E para se reconhecer enquanto parte ativa do todo é de suma importância o amadurecimento sobre a metodologia utilizada nos espaços entendendo que a forma se relaciona dialeticamente com o conteúdo.

    1. A ferramenta de leitura da realidade: o plano de fundo do método ou o chão sob o qual se ergue.

Por último, o ponto de partida. Ao repensarmos os encontros estudantis de ciências sócias repensamos também o nosso ponto de partida. Afinal, para estruturamos o objetivo dos encontros e optarmos por uma melhor metodologia organizativa e pedagógicas é necessário que tenhamos um ponto de partida. Para nós, o ponto de partida é o da transformação da realidade. É aí que o MJC se relaciona com nossa materialidade e se apresenta como alternativa viável no amadurecimento do processo de coletividade e formação acadêmica e política de todos os participantes.

O método analítico adotado é o método materialista histórico dialético, que, ao fundamentar a teoria marxista, coloca como desafio a ruptura com os marcos atuais da sociedade burguesa, apresentando como necessidade a transformação da realidade através do reconhecimento das contradições existentes em nossa realidade, da impossibilidade da neutralidade em uma sociedade dividida e estruturada em classes e da possibilidade de novas formas de sociabilidade livres do fardo histórico do nosso tempo, marcado pela contradição central entre capital e trabalho ou entre os poucos que se apropriam da riqueza produzida e os muitos que tem na sua força de trabalho o seu único meio de sobrevivência. É nesse sentido que tomamos partido. Pela compreensão de que só no processo de transformação social é que se muda a vida. Somente ao pensarmos nos encontros estudantis de ciências sociais como espaços teórico-práticos de formação, atuação e transformação é que podemos fazer valer o lema de nos tornarmos, cada dia mais, cientistas sociais perigosos!

Essa breve discussão é só o começo. É necessário pensarmos organicamente nos nossos espaços, acumulando a cada encontro as melhores possibilidades de organização dos nossos espaços para uma cada vez melhor integração. Não nos esquecemos que a história se faz cotidianamente e coletivamente e que movimentar-se é uma necessidade.

No desejo sincero de fazermos da nossa formação e atuação instrumentos de transformação,

Comissão Organizadora XXVIII ENECS

Fortaleza, Julho de 2013

1Por trabalho entende-se aqui a categoria fundamental da ontologia do ser humano, isto é, a atividade metabolica de transformação da natureza que ao ser aplicada transforma não só a natureza mas também o ser humano.

2Por turistagem entende-se a ida aos encontros de movimento de área para conhecer cidades diferentes, aproveitando o baixo custo da viagem (transporte via universidade, alojamento e alimentação relativamente barato, etc)

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